EP14 – PARTILHA DA ÁFRICA

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Neste episódio, os historiadores “C. A.” e “Beraba” debateram e refletiram sobre as raízes de um dos mais profundos processos históricos, do final do século XIX, que se arrastou por, praticamente, todo o século XX, a Partilha da África.

NO EPISÓDIO

Descubra as principais características do processo histórico, político, econômico e social que levaram ao domínio territorial do continente africano pelos europeus, entenda as facetas do discurso civilizatório que justificou a colonização da África, compreenda os diversos interesses em jogo que levaram a divisão do território africano pelas potências industriais e surpreenda-se ao descobrir como a visão sobre os negros construída ao longo do tempo impacta as relações sociais no Brasil e no Mundo.

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PRODUÇÃO E EDIÇÃO

 Arte da vitrineAugusto Carvalho

 EdiçãoTalk’nCast

MENCIONADO NO EPISÓDIO

Hotel Ruanda – Trailer

SAIBA MAIS

Mapas históricos

 Mapa da Costa Ocidental da África, de Serra Leoa a Cabo Palmas, incluindo a Colônia da Libéria (1830). Disponível em: <http://www.wdl.org/pt/item/149/>. Acesso em: 16 mar. 2012.

Mapa da África de 1820, elaborado pelo cartógrafo e geógrafo francês Adrien Hubert Brué (1786-1832). Disponível em: <http://www.wdl.org/pt/item/55/zoom.html>. Acesso em: 16 mar. 2012.

Livros Paradidáticos

MACKENZIE, J. M. A partilha da África (1880-1900). São Paulo: Ática, 1994.

SOUZA, M. M. África e Brasil africano. 2. ed. São Paulo: Ática, 2007.

Livros

FERRO, M. (Org.). O livro negro do colonialismo. Tradução de Joana Angélica D’Ávila Melo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

FERRO, M. História das colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII ao XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

HERNANDES, L. M. G. L. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. 2. ed. rev. São Paulo: Selo Negro, 2008.

HOBSBAWM, E. J.; RANGER, T. A invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

JAUARÁ, M. A construção do Estado moderno na África lusófona. Anais do XXV Simpósio Nacional de História. Fortaleza: ANPUH, 2009. Disponível em: http://anais.anpuh.org/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.1415.pdf Acesso em: 20 de nov. 2016

LANDES, D. S. Prometeu desacorrentado: transformação tecnológica e desenvolvimento industrial na Europa ocidental, de 1759 até os dias de hoje. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

PRATT, M. L. Os olhos do império: relatos de viagem e transculturação. Tradução de Jéxio Hernani B. Gutierre. Bauru: EdUSC, 1999.

THORNTON, J. A África e os africanos na formação do mundo atlântico (1400-1800). Tradução de Marisa Rocha Motta. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier/Campus, 2004.

Coleção História Geral da África – Organizada pelo Comitê Científico da UNESCO 

Edições completas em .PDF

Volume 1 – Metodologia e Pré-História da África

Volume 2 – África Antiga

Volume 3 – África do século XVII ao XI

Volume 4 – África do século XII ao XVI

Volume 5 – África do século XVI ao XVIII

Volume 6  – África do século XIX até 1880

Volume 7 – África sob domínio colonial 1880-1935

Volume 8 – África desde 1935

Síntese da coleção em 2 volumes

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  • Willian Spengler

    Salve Beraba!
    Ave César!

    Novamente por aqui, prestigiando este excelente trabalho, meu nome é Willian Spengler.

    Sabe aquela sensação de “quero mais”? Pois é, este foi o sentimento ao terminar de ouvir o episódio sobre Partilha da África.

    A medida que o cast se desenrolava, fiz algumas anotações sobre o tema, que pretendo enviar via e-mail. Vou utilizar este espaço para mencionar algumas obras, além daquelas citadas aqui na postagem, relacionadas à “fome europeia” que acabou por transformar o continente africano numa verdadeira “feira livre”.

    No campo dos livros paradidáticos, temos dois exemplares constantes da excelente série “Discutindo a História”, publicada pela Atual Editora. O chileno Héctor Bruit escreve “O imperialismo”, trazendo algumas observações bem pontuais sobre processo que acabou por solapar a África e a Ásia, além de comentar também sobre os reflexos de tal prática na América Latina. Já Letícia Canêdo, escreve “A descolonização da Ásia e da África”, dando especial ênfase aos reflexos das práticas colonialistas, bem como as movimentos de contestação que surgiram ao longo dos século XX, nas áreas ocupadas.

    No campo dos livros que discutem a temática histórica, na consagrada obra “O Século XX” (editada em 3 volumes, pela ed Civilização Brasileira), o professor Edgar de Decca escreve um interessante artigo intitulado “O colonialismo como a glória do império”, onde discute praticamente todo o pano de fundo que resultará na partilha afro-asiática, fazendo um link com obras de ficção do respectivo período associadas ao reflexo da prática neocolonialista. Também na mesma obra (vol 1), Adriana Facina e Ricardo de Castro escrevem “A resistência dos povos à partilha do mundo”, dando ênfase justamente nos diversos movimentos de resistência que os povos colonizados impuseram antes, durante e depois de ter seu território invadido e dominado. Outro que discute o tema é o historiador holandês Henk Wesseling, que tem uma obra muito interessante chamada “Dividir para Dominar – A Partilha da Africa – 1880-1914” (ed. UFRJ/Revan). Trata-se de um trabalho bem descritivo e detalhista sobre o esforço sistemático dos europeus em dividir para dominar regiões africanas. O autor compara Leopoldo II com o famoso personagem literário Mister Hyde/Doutor Jekyll, devido aos trejeitos com que tratava a relação aos europeus defensores dos direitos humanos e seus governados africanos. Leitura envolvente e competente! O livro “História da África”, de autoria do historiador José Rivair Macedo (ed Contexto), pode servir como ponto de partida para os mais curiosos sobre o tema, não apenas da partilha em si, mas sim de toda a riqueza cultural presente no continente africano. De fácil leitura, o livro divide as experiências históricas de acordo com regiões, tais como a África Nilótica, Índica, Mediterrânica, Saariana e da África Atlântica, respeitando a diversidade de ambientes e culturas humanas, com suas particularidades, com suas respostas específicas aos imperativos da história.

    E na literatura pop? De imediato, conforme comentei com o C.A., quando se fala em partilha africana um grande personagem me vem à mente. Sim, ele, filho de aristocratas britânicos, que sobrevive no coração do continente negro, criado por grandes símios: Tarzan, verdadeiro bastião da “civilização”, em meio a uma terra de barbárie e exotismo! Ele é cria de Edgard Rice Burroughs, que JAMAIS pisou em solo africano, bom frisar. John Clayton, também conhecido como Lorde Greystoke, viaja com sua esposa da Inglaterra para uma colônia britânica na África; durante a viagem, os marinheiros realizam um motim e o casal é abandonado numa selva africana, onde constroem uma casa na árvore; a esposa enlouquece, adoece e morre; Lorde Greystoke é morto pelo macaco Kershak, o bebê de um ano do casal inglês é encontrado e adotado por uma macaca chamada Kala. A origem de Tarzan é totalmente inverossímil, mas é justamente em algumas de suas inverossimilhanças é que percebemos uma mensagem de teor neocolonialista, sem falar numa pitada de racismo: Tarzan é filho de ingleses, mas mesmo órfão e privado do contato com outros seres humanos, consegue provar a suposta “superioridade” do homem branco ao superar os grandes macacos em inteligência, a ponto de se tornar o líder deles (após matar Kershak numa luta), e os igualar em força física (o que o torna mais forte que qualquer ser humano, inclusive os africanos das tribos próximas ao seu lar).

    Outro(a) personagem que salta aos olhos, quando falamos da “África Misteriosa”, é Allan Quatermain, criado pelo escritor inglês Henry Rider Haggard (que atuou como funcionário da coroa inglesa na África do Sul). Quatermain (um caçador inglês criado na África do Sul) é o personagem central de uma série de contos, sendo o mais famoso deles intitulado “As Minas do Rei Salomão”. No livro, ele é contratado por Sir Henry Curtis para ajudar nas buscas de seu irmão, George Neville, que desapareceu enquanto desbravava a África em busca de uma mina de diamantes, conhecida como as Minas do Rei Salomão. Assim como Neville, que parte para outro continente para achar riquezas, Quatermain é motivado pela promessa de muito dinheiro que Sir Curtis lhe dará para financiar os estudos do filho estudante de medicina. Para auxiliar na procura e exploração da África e ao longo de sua jornada, Quatermain encontra-se com membros de diferentes tribos, como a Zulu e os Kukuanas, construindo o paralelo entre civilizado e selvagem. Quando a comitiva se depara com os Kukuanas, liderados por Infadoos, a propagada da soberania intelectual do homem branco prevalece perante a ignorância dos nativos africanos. Ademais, talvez ele seja o grande inspirador de um ícone do cinema, chamado Indiana Jones.

    Talvez a grande obra literária, verdadeiro romance síntese de toda essa época, seja “O Coração das Trevas”, de autoria de Joseph Conrad. Resumidamente, o enredo trata-se de um relato de um marinheiro contratado por uma companhia comercial para subir um rio na África em busca de um comerciante exemplar que, ao levar ao paroxismo e ao exagero os seus métodos de exploração e expansão econômicas, põe em risco os próprios interesses da companhia. A viagem do marinheiro Marlow subindo o rio é uma alegoria desconcertante e ele, ao presenciar a arrogância com que o homem branco exerce o seu poder sobre povos de outras “raças”, começa a questionar o porquê daquela missão. A obra serviu de base para a construção do roteiro do filme “Apocalypse Now”, de Francis Ford Copolla, mantendo os nomes dos personagens principais, inclusive, apenas mudando o cenário para o Vietnã dos anos 70, em plena guerra contra os EUA. Apesar da mudança de cenário e de época, a ideia central da obra de Conrad continua exatamente a mesma.

    Personagens de histórias em quadrinhos europeias, como TinTin, tem também algumas de suas aventuras contadas pelo viés do “darwinismo social”, fato este explorado de forma concisa e precisa no cast. Tintim é um personagem criado em 1929 pelo belga Georges Prosper Remi (conhecido como Hergé). Suas aventuras ocorrem nos lugares mais exóticos do planeta e, claro, entre eles, a África. A história “Tintim na África” reforça o preconceito sobre os africanos, esteriotipado na obra como criatura inferior e ingênua. Generaliza-se uma imagem da África como um continente atrasado, cujas condições de vida são precárias e o nível intelectual dos africanos extremamente baixo: um povo ingênuo e deslumbrado frente à superioridade da civilização européia.

    Vocês comentaram sobre o filme “Hotel Ruanda” (excelente filme!). Existem dois espetaculares livros, escritos por jornalistas presentes naqueles idos de 1994, que retratam de maneira ímpar o genocídio: “Uma temporada de facões”, escrito por Jean Hatzfeld, e “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”, de Philip Gourevitch, ambos editados pela Companhia das Letras. Impactante, revoltante, deprimente.

    Amigos, continuem com esta bela empreitada, tratando a História como ela merece!

    Abraços!

    “Umuntu Ngumuntu Ngabantu”

    Willian Spengler